Vivo o lado A desde que nossa vida enraizou-se em ser feita de desencontros. Vejo que alimentamos tantas intempéries em busca de um tom mais poético, versado. Engraçado, já não lembro a última vez em que nossos olhos pararam um no outro. Pararam para ver, observar, se deixar encantar por cada canto de detalhe, cada esquina que não nos separe.
Lembro de quando me mostrou a cidade, esta, que você tanto ama e versa em versos ora saudosistas, ora decadentes. Lembro de como as luzes brilhavam. Pareciam cintilar e você disse ver o mar, ali, logo depois do limite da claridade.
E descemos a estrada, serpenteando as curvas com frases mal feitas e músicas da velha idade. Aquele momento, tão único, tão último, já se foi há algum tempo. Hoje só te encontro em encontros de desencontros. Passando. Sorrindo. Calado.
Minha fita se esvai. O lado A já quase acaba e já não quero mais essa sequência. Quero você. O lado Bê. Aquele solto, leve. Aquele que vive como quem se esqueceu do que há lá fora, como quem sabe de tudo o que se passa. Quanta coisa passa por debaixo desse chapéu. Quantos versos incertos, mas certos para cada momento. Quanta prosa imprópria, mas tão justificada em sua própria e simples autoria. Quanta euforia sucumbida em linhas complementares. Quantas lágrimas estancadas no gelo da vodka que te embebeda nos invernos e primaveras.
Te vejo em um skate, naquela rua mal iluminada da sua casa. Num deleite entregue naquela montanha perdida que você encontrou um pedaço de mim. Confesso sentir sua falta, a falta da sua presença tão rara e marcante. Tão efêmera e intensa.
O que anda lendo? O que anda vendo? E ouvindo?
O que se passa no lado Bê? Queria poder saber...
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
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Um comentário:
Lado Bê, tão obscuro, tão incerto. Não saber o que se passa do outro lado me aflige, a incerteza dos Lados de não saber o que se passa nas suas costas é reciproca. A saudade dos tempos de aurora se faz presente, ao passo que o tempo deixa tais sentimentos submergirem no nada, e na ânsia de libertar-se da angústia, de tentar descobrir o outro lado, a fita é rebobinada, e tudo volta ao início, como num filme, tornando a vida um ciclo vicioso, prisioneiro das lembranças boas que voltam em momentos oportunos e inoportunos. Sempre quando tento descobrir o outro Lado, tudo se confunde. Pensando bem, tenho medo de descobrir o Lado Bê, que nele se passam as mesmas cenas que o lado A, e que tudo continua como antes, que não há nada de novo para se viver. As cenas curtem um passado marcante, e que não demonstram qualquer sentido aparente. Sem soltura, sem leveza, sem as frases incertas que pareceriam justificaveis nessa hora, mas que não estão aqui por algum motivo. Talvez o Lado Bê esteja vazio, pronto para ser gravado, em novas cenas da vida, em que tudo que era saudade e desejos antigos, se torne realidade. O lado Bê se faz do Lado A, o lado Bê é uma nova chance de refazer a história, e de continuá-la. Tudo depende do querer, não hesite em descobrir o lado Bê, ele tem muito a lhe ensinar.
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